Estigma: As Baterias são uma ‘Bomba Poluente’ como o Petróleo

por António Gonçalves Pereira

Presidente da Associação EcoMood Portugal

A mobilidade é responsável por uma fatia muito considerável da nossa pegada ambiental.

Petróleo e motores elétricos
Serão as baterias elétricas iguais ao petróleo?

Estigma: As Baterias são uma ‘Bomba Poluente’ como o Petróleo

Desde o século XIX há estudos indicando os danos que a utilização de combustíveis fósseis causam. Mas a descoberta das primeiras grandes jazidas de petróleo e a necessidade urgente de baixar a dependência do carvão, aliado a agressivas políticas de aniquilação de qualquer outra alternativa, resultaram na hegemonia dos combustíveis fósseis.

E assim, mais de um século depois, já com a Terra a não deixar dúvidas que este caminho não tem final feliz, existem centenas de milhões de veículos a combustão a circular que, finalmente, começaram a ser substituídos, lenta mas inexoravelmente, por híbridos e elétricos. Em desespero de causa, uma vez que já perceberam que não vão conseguir inverter esta tendência, tanto a indústria petrolífera, como os fabricantes tradicionais de automóveis, como ainda alguns conservadores por vocação ou agenda, têm lançado campanhas de estigmas, ou meras mentiras, para atrasar o processo, incluindo artigos e estudos de natureza pretensamente científica, para lhes dar credibilidade.

Abordemos hoje a questão do armazenamento de energia elétrica. Ou seja, as baterias. E o estigma de que estas são, senão piores, pelo menos tão poluentes como o petróleo. Sobretudo quando em fim de vida, mas também na sua produção. Não acredite, é falso. Vamos por partes:

1. A produção das baterias de Lítio é Poluente

Sim, é verdade, como tudo o que fazemos, a produção de baterias tem uma pegada, mas… está a ler isto no computador ou telefone? Saiba que mais de 90% da pegada que esses equipamentos causaram foi feita na produção e distribuição, antes de chegarem às suas mãos. Está vestido? A produção dessa roupa também causou uma pegada muito considerável. Olhe à sua volta: tirando essas plantas no jarro, tudo o resto causou pegada de carbono e outros danos ambientais.

‘Sustentável’ não é pegada zero, isso não existe. ‘Sustentável’ é poluir dentro dos limites do que a Terra, a nossa área envolvente e nós conseguimos repor. Posto isto, repito, sim, a produção das atuais baterias está longe de ser perfeita. Mas desde que racionalmente acautelados os impactos ambientais, tanto a captação dos minérios como a produção das baterias pode ser sustentável. A maior pegada dessa fase pode até vir do transporte das matérias-primas até à produção; e depois das baterias até aos pontos de venda ou instalação. Isto porque, como já adivinhou, esse transporte é ainda feito por camiões e barcos… a gasóleo.

2. A catástrofe das baterias em fim de vida

Admitamos também desde já que, a actual tecnologia de baterias está muito longe de ser ideal. Como sabemos, estigmas à parte, estas soluções de 7 a 16% de lítio, com outros metais e produtos tóxicos, sofrem um desgaste mais rápido do que gostaríamos, além de serem ainda pouco eficazes na quantidade de energia que armazenam, sobretudo em relação ao peso e ao espaço, bem como à rapidez de recarga. Por isso, por todo o mundo, se está a trabalhar em novas soluções e tecnologias.

Mas, como fácil e generalizadamente se percebe, isso não as torna mais poluentes do que o petróleo. Entra, então, novo estigma: não são recicláveis. Quando perdem a autonomia suficiente para um automóvel, vão para o lixo, são uma catástrofe ambiental.

Saiba que isso não é minimamente verdadeiro. Já existe tecnologia para reciclar totalmente estas baterias. As soluções químicas são neutralizadas e/ou parte dos seus componentes são reutilizados, os metais e plásticos são separados e reciclados. É um processo ainda caro e complicado, mas existente. E a tendência é que, com a massificação e natural evolução, esse processo seja muito facilitado e tornado mais acessível. Apesar de os fabricantes irem fazendo as suas evoluções e alterações.

Além disso, apenas recentemente começámos a ter as primeiras quantidades consideráveis de baterias em fim de vida. Ou, aliás, em fim de primeira vida. Na prática, só estão a ser recicladas baterias com defeito, todas as demais estão a ser reutilizadas. Na maior parte dos casos, para armazenamento de energias renováveis, sobretudo a fotovoltaica. Mas não só. E estima-se que essa segunda vida dure mais de 20 anos. Isso dá-nos certamente tempo para melhorar e embaratecer o processo da sua reciclagem.

3. E AGORA…”For something completely different!”

Volto a sublinhar: a actual não será a tecnologia definitiva de armazenamento de energia, bem pelo contrário. E, ainda assim, continuam a estudar-se e desenvolver-se soluções para a melhorar, tanto em rapidez de carga, como em diminuição do desgaste. Mas, sobretudo, por todo o mundo está-se a pesquisar outras opções.

Um exemplo mais imediato e próximo é a nossa Profª. Maria Helena Braga, da Faculdade de Engenharia do Porto que, em colaboração com a Universidade de Huston, está a desenvolver baterias à base de sódio. Os resultados demonstram uma considerável evolução em relação ao lítio, tanto em durabilidade como em capacidade. Além do preço, já que o sódio – sal – existe em grandes quantidades e é de fácil captação.

Mas há também quem esteja já a trabalhar em soluções semi-sólidas e, ao que tudo indica, em 3 ou 4 anos teremos também baterias em estado sólido. E estas, academicamente, demonstram já grandes vantagens, como o facto de irem aumentando ligeiramente de capacidade com cada recarga, ao invés de se desgastarem.

É certo que até chegarem ao estado ‘adulto’ e serem utilizadas massivamente, estas soluções ainda demorarão mais alguns anos. E, mesmo depois disso, a actual tecnologia ainda continuará a ser utilizada, perdendo progressivamente a sua hegemonia, até se tornar obsoleta. Ainda assim, recordemos que a combustão de cada litro de derivado do petróleo emite, em média, 2,6 quilos de carbono, além de nitratos e outros gases poluentes. Uma bateria elétrica, mesmo carregada com eletricidade não 100% limpa, como ainda acontece hoje, tem, por comparação, uma pegada quase residual. E essa é que é a verdade.

Portanto, estigmas à parte, se quer preocupar-se e agir no que às baterias diz respeito, e deve fazê-lo, eis algumas sugestões:

– Exija que a prospecção e mineração dos componentes actuais das baterias sejam efectuadas de forma sustentável, tanto ambiental como socialmente;

– Exija que a reciclagem das baterias seja efectuada e melhorada;

– Exija o incentivo a soluções para uma rápida eletrificação de outros meios de transporte, como caminhões, barcos e aviões. Estes são os verdadeiros grandes poluentes da mobilidade, é necessário baixar urgentemente essa pegada. O que resultará na redução da pegada de quase tudo o que produzimos, incluindo as baterias;

– Nas baterias como no resto, exija que a sustentabilidade ambiental seja a primeira prioridade da humanidade, seguida da social e, só então, a financeira. Sem humanos não há mercados;

Exija mais de si próprio. Lembre-se: podem até parecer menos confortáveis ou mais complicadas, mas há sempre alternativas sustentáveis. A menos que se inventem rapidamente baterias com capacidade para nos levar lá a todos, o que não há é planeta B. 

EcoLogicamente!

*Este artigo está escrito em português de Portugal, sem (des)acordo ortográfico.

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